quinta-feira, 18 de junho de 2009

O que você achou do fim da obrigatoriedade do diploma para jornalistas?

O Notas Digitais ouviu a opinião de alguns profissionais sobre o assunto. Confira e comente dizendo o que você pensa.

Arthur Dapieve, jornalista: "Como jornalista e como professor, acho uma boa faculdade de jornalismo muito importante para quem quer ser jornalista profissional. É nela que se aprendem as técnicas mais eficientes de comunicação, começa-se a se pensar na ética do trabalho, experimentam-se as diversas mídias etc. No entanto, sei que, infelizmente, nem todo mundo que possui um diploma de jornalista está apto a exercer a profissão, ainda mais dada a proliferação de instituições caça-níqueis. Era preciso, portanto, permitir que talentos na comunicação que tenham cursado bem outras faculdades pudessem exercer o jornalismo dentro da lei. Aliás, alguns dos melhores jornalistas em atividade que conheço não têm o diploma, porque se formaram antes da regulamentação imposta durante a ditadura militar..."

Patricia Travassos Costa, jornalista:
"O fato é que os que defendem o fim do diploma se esquecem de que, para ser um jornalista, não basta apenas escrever bem e ser um bom profissional de qualquer área. Um bom jornalista é, antes de tudo, um fiscal da nação. É ele que assume o desagradável papel de vigilância, principalmente dos governos e, agindo no vácuo da ineficiência de nossa legislação e da nossa polícia, é ao jornalista que cabe o papel de denunciar as muitas e incalculáveis irregularidades, casos de corrupção, mazelas e desvios de conduta que nossos líderes, legisladores, chefes e oficiais costumam cometer. Aliás, parece ser justamente por conta desse papel que o Supremo derrubou a exigência do diploma, e colocou na mão dos patrões da mídia todo o poder de decisão sobre a forma como esses profissionais deverão atuar daqui para frente. Quais serão critérios serão na escolha de quem poderá trabalhar com mídia? Voltaremos ao tempo do QI (quem indica) ou do teste do sofá?"

Rafael Savastano, analista de sistemas: "Eu sou de Informática, que nunca teve obrigatoriedade de diploma exigida por lei, então acho que tanto faz. Minha profissão, como muitas outras, é invadida por engenheiros e no entanto tá aí firme e forte. E especificamente no caso do jornalismo, temos que pensar que, na era digital, os blogs estão crescendo em importância e neles nunca existiu obrigatoriedade de diploma. E outra, sem a obrigatoriedade, provavelmente vão desaparecer vários cursos caça-níqueis de Comunicação e possivelmente a qualidade média dos cursos e, consequentemente, do profissional diplomado vai aumentar. E o diploma não é obrigatório por lei mas o empregador que estiver atrás de um BOM profissional obviamente vai exigir diploma como sempre fez, mas por outro lado pode abrir vagas de nível técnico e parar de usar estagiários ou recém-formados para funções mais triviais."

Mario Cavalcanti, jornalista e editor do site Jornalistas da Web:
"Achei um pouco desrespeitoso, mas acho que não mudará muita coisa. Não acho que seja o fim do mundo. É o fim da obrigatoriedade, não o fim do diploma ou da profissão. Acredito mais em mudanças positivas, como uma melhora do ensino superior. E aquela pessoa realmente interessada em jornalismo vai querer entrar em uma faculdade de qualquer forma para somar."

Claudio Carneiro, jornalista: "Esta decisão do STF não surpreende e pouco afetará os profissionais de grande imprensa já devidamente instalados no mercado. Mas tem um ranço de vingança pessoal do ministro Gilmar Mendes contra os jornalistas. Surpreendente mesmo foi que o único voto contra a medida tenha partido – justamente – do mais retrógrado deles, o ministro Marco Aurélio Mello. A lamentar a ausência de Joaquim Barbosa mas sei, de fonte segura, que suas dores na coluna nem o deixam mais sentar ou pensar direito. Duro mesmo foi ouvir o ministro Gilmar comparar minha profissão à dos chefs de cozinha. Mesmo sabendo que eles ganham muito mais do que nós. Foi um golpe baixo. Em suas alegações, o ministro Cezar Peluso disse que o diploma não protege o profissional de errar. A decisão dos ministros do STF demonstra que isso é verdade. "

Rafael Kalil, músico: "Não sou jornalista, não tenho diploma, apenas segundo grau completo, sou compositor, cantor e instrumentista, porém por diversas ocasiões tive que trabalhar em áereas que fugiam um pouco de meus objetivos por causa de grana e numa delas parei numa redação de uma ONG no setor de comunicação aonde eu era chefe de uma redação de um site jornalisto da entidade. Na prática, eu ocupava um cargo que me exigia fazer uma redação funcionar, com correspondentes, jornalistas, editores, webmaster e fotografos.

Com exceção dos fotógrafos, todos eram diplomados menos eu, porém fui aprendendo na prática o funcionamento da estrutura e consegui dar sequência ao trabalho sem grandes problemas e sem deixar falhas, tanto é que nos três anos que ocupei este cargo eu nunca fui cobrado nem nunca me foi exigida graduação alguma, os resultados falavam por si.
Por vezes, corrigi erros de portugues de jornalistas formados nestas esquinas da vida, pessoas com diploma porem com conteudo critico nenhum, nesta equipe havia uma que trabalhava melhor como secretária do que produzindo matérias, ela tinha acabado de se formar na Estácio e parecia uma estudante secundária, com erros primários, vocabulário limitado, falta total de conteúdo e visão crítica, enfim, um desastre.

Talvez o meu caso seja uma exceção, talvez seja mesmo, não estou aqui querendo ter a audácia de arfirmar que cursar falcudade de jornalismo não valha de nada, pelo contrário, e também hoje consigo viver exclusivamente na música e não estou me propondo a disputar espaço em área que não é de minha competência. Mas assim como eu, conheço profissionais super competentes na televisão e em jornais que não têm diploma, apenas sua experiência na área e seu conteúdo e inteligência, e muitas vezes dão um show de profissionalismo e competência."

3 comentários:

Eduardo Frick disse...

Pra mim, profissão nenhuma deveria exigir um diploma. Nem medicina.

Bart Rabelo disse...

Meu comentário chega um pouco atrasado. A minha profissão não exige formação alguma, como Comprador e profissional da área de Supply Chain, porém hoje em dia as empresas enxergam diplomas como diferenciais. É cada vez mais difícil um profissional sem diploma se colocar no mercado, mesmo que tenha vasta experiência e habilidades diversas. Infelizmente, as empresas de visão limitada ou com uma péssima seleção de recursos humanos, declara capacidade mediante a quantidade de cursos que uma pessoa já fez - o que na minha opinião é um grande erro.

Além da minha profissão, tenho meus hobbies como músico e escritor amador. Nenhuma das duas exige qualificação formal, porém cultura vasta é um diferencial. Quando eu tinha 20 anos não conseguia cantar, tocar guitarra ou escrever uma crônica com a mesma facilidade e fluência de hoje. Imagino como estarei daqui a 20 anos, logo creio ser capaz de entender que a experiência é um fator fundamental para o exercício de qualquer atividade com o mínimo de qualificação. Já uma faculdade, por melhor que seja, oferece uma capacidade de aquisição de experiência prática terrivelmente limitada para seus alunos, qualquer que seja o curso - vide os anos que um estudante de medicina deve praticar de residência médica, após encerrar seus estudos básicos.

Boa sorte para os jornalistas recém-formados. Terão que batalhar bastante, correr atrás e se qualificar. Mas citando o Zanin, do Estadão, "os desafios do jornalista (...) envolvem formação permanente, senso ético, boa cultura geral, trato amigável com o idioma, atualização diária de competência. Ler ajuda e muito."

Aliás, dois golpes duros para os jornalistas de visão míope e acomodados no topo do 4º poder: esta jurisprudência do STF e o apoio da ABI ao Blog da Petrobras. Viva a liberdade de imprensa, de fato.

Beta disse...

O fato de ter um diploma em jornalismo não me parece ser um diferencial na minha vida profissional, apenas reflete uma série de conhecimentos e experiencias que se tornaram muito válidas e apreciadas pelo mercado. Concordo com o Dapieve que existem ótimos jornalistas sem diploma, e muitos diplomados incompetentes. A formalidade do diploma não faz diferença, a experiência e dedicação em obter uma formação adequada, seja atraves da universidade ou não, é muito mais importante.