Formei-me em jornalismo na PUC do Rio de Janeiro há quatro anos. Do período da faculdade, o que mais me marcou foram as discussões intensas, os debates calorosos, os trabalhos em grupo em que se percebia múltiplos talentos e opiniões as mais diversas e que exigiam que a equipe chegasse a um consenso e fosse capaz de apresentar essas ideias a toda a turma. Marcaram-me muito também as aulas que nos ensinavam a nos colocar diante de uma plateia, treinavam a colocação de nossa voz e a nossa postura física, nos ajudando a perceber como é importante a maneira como falamos em público para que a mensagem que se pretende transmitir a ele consiga alcançá-lo com êxito.
Guardarei sempre na memória, sobretudo, aquelas aulas que nos faziam pensar nas consequências de uma cobertura jornalística. Na repercussão da notícia gerada pela apuração. Na faculdade, somos incentivados a pensar em nosso papel na sociedade. Todo o tempo, somos estimulados a pensar no que fazemos, a consultar fontes seguras e variadas antes de ter certeza sobre alguma informação, a checar tudo, a ter cuidado ao redigir um texto, a colocar a informação principal em cima das restantes - para que o leitor de pronto saiba do que se trata o texto - e principalmente a aguçar nosso senso crítico para desenvolver a nossa capacidade de analisar um fato e então descobrir qual é realmente a notícia ligada a ele. Aprendemos técnicas de texto e redigimos uma mesma matéria inúmeras vezes até que o trabalho seja considerado bom. Entrevistamos pessoas até que saibamos fazer isso sem cair no óbvio. Aumentamos a nossa autocrítica. Passamos a nos preocupar mais com o que escrevemos e falamos.
Como em qualquer outra faculdade, diante de todos os estímulos, o nosso desempenho e o nosso aproveitamento dependem muito mais de nós mesmos que de qualquer outro fator. Por isso, procuramos fazer estágios, ler muito, nos informar o tempo todo, frequentar cursos extras, seminários, eventos: tudo que todo estudante faz, quando se dedica de verdade. A decisão do STF que derrubou a exigência do diploma de jornalista para o exercício da profissão não derrubou a necessidade do preparo, do estudo, das reflexões sobre ética e sociedade, da dedicação às técnicas capazes de tornar o texto mais conciso, mais claro e mais objetivo. Perguntaram-me muitas vezes diante da notícia do diploma nos jornais: “você se arrepende da faculdade que fez? Podia ter ‘economizado tempo e dinheiro’, feito outra faculdade, enfim, sente que perdeu tempo?” De forma alguma. Por que me arrependeria? Não fiz a faculdade pelo diploma. Fiz porque queria fazer a faculdade de jornalismo.
Particularmente, nunca nem mesmo pensei em fazer outra faculdade que não fosse a de jornalismo. Consigo entender que existem muitas pessoas que exercem muito bem a profissão sem o diploma e outras que com ele embaixo do braço são um desastre. Dos que exercem sem o diploma, o destaque vai para os que já estão na área há tempo suficiente para, com experiência de vida e muita maturidade, de alguma forma compensar as possíveis deficiências da base que falta aos novatos e que a universidade ajuda a adquirir. Outros se tornaram jornalistas antes de a profissão ser regulamentada e contribuíram e muito para ela ser o que é hoje. Muitos nessa situação também defendem o diploma. Simplesmente entendem a necessidade de uma boa formação de quem se propõe a ser um jornalista.
Tenho orgulho da faculdade que fiz, que me instigou a estudar ainda mais e me levou a fazer uma pós-graduação na área de comunicação online. Continuo frequentando muitos cursos e seminários sempre que posso, lendo muito, sentindo saudade da faculdade (não só da farra e das chopadas, mas das aulas e dos papos nos corredores com professores e alunos que também tanto nos ensinam!) e penso em fazer mestrado. Incentivo todos que querem ser jornalistas, que hoje cursam a faculdade de jornalismo ou que pensam em cursá-la, a levar adiante essa ideia e estudar muito. Acredito até que as faculdades de jornalismo têm condições de melhorar muito também, agora que ao receber alunos novos ganharão estudantes realmente interessados no aprendizado, e não apenas no título.
E que as empresas tenham sempre muito bom senso ao contratar funcionários para funções jornalísticas e continuem valorizando o diploma não pelo diploma, mas simplesmente pelo significado de uma faculdade de jornalismo para a vida de alguém que quer ser jornalista. Para nós, jornalistas, fica mais uma vez a lição da persistência. Que todos que nos dedicamos a essa profissão sempre tão criticada e ainda longe de conquistar o valor merecido continuemos a fazer o nosso trabalho como sempre fizemos.
E viva a liberdade de imprensa!
Veja no post abaixo algumas opiniões sobre a derrubada da obrigatoriedade do diploma
2 comentários:
Meu comentário chega um pouco atrasado. A minha profissão não exige formação alguma, como Comprador e profissional da área de Supply Chain, porém hoje em dia as empresas enxergam diplomas como diferenciais. É cada vez mais difícil um profissional sem diploma se colocar no mercado, mesmo que tenha vasta experiência e habilidades diversas. Infelizmente, as empresas de visão limitada ou com uma péssima seleção de recursos humanos, declara capacidade mediante a quantidade de cursos que uma pessoa já fez - o que na minha opinião é um grande erro.
Além da minha profissão, tenho meus hobbies como músico e escritor amador. Nenhuma das duas exige qualificação formal, porém cultura vasta é um diferencial. Quando eu tinha 20 anos não conseguia cantar, tocar guitarra ou escrever uma crônica com a mesma facilidade e fluência de hoje. Imagino como estarei daqui a 20 anos, logo creio ser capaz de entender que a experiência é um fator fundamental para o exercício de qualquer atividade com o mínimo de qualificação. Já uma faculdade, por melhor que seja, oferece uma capacidade de aquisição de experiência prática terrivelmente limitada para seus alunos, qualquer que seja o curso - vide os anos que um estudante de medicina deve praticar de residência médica, após encerrar seus estudos básicos.
Boa sorte para os jornalistas recém-formados. Terão que batalhar bastante, correr atrás e se qualificar. Mas citando o Zanin, do Estadão, "os desafios do jornalista (...) envolvem formação permanente, senso ético, boa cultura geral, trato amigável com o idioma, atualização diária de competência. Ler ajuda e muito."
Aliás, dois golpes duros para os jornalistas de visão míope e acomodados no topo do 4º poder: esta jurisprudência do STF e o apoio da ABI ao Blog da Petrobras. Viva a liberdade de imprensa, de fato.
Quem está interessado neste assunto não pode deixar de ler a coluna da Miriam Leitão deste sábado no Globo.
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